O ponto de partida
Cresci em Brasília, uma cidade literalmente desenhada para o carro. O Plano Piloto foi pensado para 500 mil habitantes no ano 2000, com avenidas largas, setores bem definidos e distâncias que fazem sentido pelo para-brisa e viram travessias árduas para quem anda a pé. No Censo de 2022, Brasília apareceu como a terceira maior cidade do país. A cidade não congelou, ela só deixou de caber no próprio desenho, e quem sente isso todos os dias é quem depende de ônibus para atravessar dezenas de quilômetros entre as cidades satélites e o centro.
Foi desse incômodo vivido que nasceu o AVWA, um projeto conceitual de serviço de mobilidade: pessoas alugando carros de outras pessoas, com a segurança e a praticidade que a tecnologia pode oferecer, sob a credibilidade de uma marca como a Volkswagen. Este case cobre a etapa de concepção do serviço, o momento em que eu precisava transformar contexto em decisão antes de desenhar qualquer fluxo ou interface.
A pergunta que organizou tudo era simples de fazer e difícil de responder: vale a pena mesmo ter um carro? A resposta depende de renda, rotina e território, e é exatamente nessa variação que mora a oportunidade de serviço.
O desafio
Fundamentar a concepção de um carsharing P2P com evidência, não com achismo. Isso significava varrer um sistema inteiro, passando por sociedade, economia, meio ambiente, mercado automotivo e mobilidade urbana, e sair do outro lado com pilares de serviço defensáveis: para quem ele existe, que problema resolve, por que uma montadora deveria operá-lo e o que aprender com quem já tentou e fechou as portas.
Por que pesquisa secundária e benchmarking
Como projeto conceitual, eu não tinha acesso a dados internos da Volkswagen nem a uma base de clientes para entrevistar. A decisão de método foi trabalhar com o que existe publicamente e é verificável: estudos de mercado, reportagens, sites e FAQs das concorrentes, navegação nos aplicativos e o feedback de consumidores em plataformas como o Reclame Aqui. Desk research bem feita não substitui pesquisa primária, mas é ela que define as perguntas certas para as etapas seguintes.
A jornada pelo sistema
A investigação avançou em círculos cada vez mais próximos do usuário. Comecei pelo comportamento: um estudo da OCDE mostrou que, na década de 2010, o tempo médio de lazer caiu em 8 de 13 países monitorados. Um serviço de mobilidade não disputa só o bolso das pessoas, disputa o recurso mais escasso delas, o tempo.
O segundo círculo foi a economia compartilhada, que já movimentava cerca de US$ 15 bilhões por ano no mundo sobre três pilares: confiança, consumo consciente e experiências únicas. O dado que mais sustentou a tese veio do estudo Shared Mobility, da Universidade da Califórnia: um carro compartilhado retira, em média, de 9 a 13 automóveis das ruas, e 25% dos usuários de carsharing venderam o próprio carro enquanto outros 25% adiaram uma compra nova. O acesso estava, comprovadamente, substituindo a posse.
O terceiro círculo foi a marca. A Volkswagen, maior fabricante de automóveis do mundo, vinha de um reposicionamento estratégico puxado por sustentabilidade e inovação: o serviço de compartilhamento WeShare na Europa (VWmove no Brasil), o app WeConnect Go conectando veículos à internet das coisas e um plano de 3,5 bilhões de euros em presença digital até 2025. A frase do CMO Jochen Sengpiehl resumia a virada que o AVWA propunha acelerar: a empresa não estava mais preocupada primariamente com produtos, e sim com as pessoas que convivem com eles.
O último círculo foi o mais importante e o mais desconfortável: quem realmente pode escolher o carro em Brasília? O estudo Como Anda Brasília mostrou que a capital tem a maior renda per capita do país e, ao mesmo tempo, a segunda distribuição de renda mais desigual. Os recortes revelam o resto: andar a pé e de ônibus predomina entre as mulheres, a população negra depende dele em taxa quase duas vezes maior que a não negra, e a mulher negra periférica é a mais desassistida pelas políticas públicas de transporte. A conclusão que carreguei para o desenho do serviço foi direta: mobilidade urbana se relaciona intimamente com exclusão social, e um serviço que ignora isso nasce míope.
Processo e papel
Trabalhei sozinha em todas as frentes desta etapa, organizadas em cinco fases:
- Pesquisa secundária ampla. Levantei conceitos, cenários e tendências em sociedade, economia, meio ambiente, economia colaborativa, mercado automotivo e mobilidade urbana, sempre a partir de fontes públicas citáveis.
- Leitura do território. Analisei Brasília como caso de estudo: a lógica modernista do Plano Piloto, o crescimento desordenado das cidades satélites e os fatores estruturais do problema de mobilidade mapeados na literatura, do desalinhamento entre planejamento urbano e transporte à falta de financiamento permanente de infraestrutura.
- Recortes de desigualdade. Cruzei os dados de renda, gênero e raça da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios para entender quem tem escolha de transporte e quem apenas se submete ao que existe.
- Benchmarking de mercado. Comparei as iniciativas mais próximas da proposta em formato de serviço, comodidades e custos: MoObie e Ominicar como intermediárias P2P, a pioneira Fleety, a Pegcar com seus cerca de 30 mil usuários e o seguro criado com a Mapfre, e os players ativos, da Turbi com 1.700 veículos e 800 pontos na Grande São Paulo à Turo, com 130 mil carros listados em 4.700 cidades.
- Síntese e decisão de modelo. Contrastei os dois modelos de negócio possíveis, B2C com frota própria e P2P entre pessoas, e defendi o P2P: ele atende quem não tem carro e, ao mesmo tempo, transforma o veículo parado do proprietário em fonte de renda. O argumento de venda coube em uma frase: o seu carro pode se pagar.
A entrega
O resultado desta etapa não foi uma tela, foi a espinha dorsal do serviço. Primeiro, a tese: existe mercado, e ele é estratificado por renda, raça e gênero, o que faz do acesso facilitado ao carro uma pauta de impacto social e não só de conveniência. Segundo, a legitimidade: a VW tinha recursos financeiros, força de marca e estratégia orientada à inovação para ser pioneira no P2P brasileiro. Terceiro, o reenquadramento: o carro deixa de ser bem de consumo e passa a ser ferramenta de locomoção e de renda.
9 a 13
carros retirados das ruas por cada carro compartilhado
89%
dos brasileiros que usaram serviços colaborativos ficaram satisfeitos
4 mi
carros próprios circulando só em São Paulo, contra 1 mi das locadoras
2
modelos de negócio comparados até a escolha do P2P
O benchmarking também entregou algo que considero mais valioso que a lista de concorrentes: os motivos pelos quais o carsharing já fracassou no Brasil. Fleety encerrou em 2017, Pegcar e MoObie saíram do ar, e os padrões se repetem: dificuldade de captar investimento e sustentar capital de giro, a mudança cultural necessária para alugar o carro de um desconhecido, preços que empatavam com as locadoras tradicionais e a falta de uma solução integrada, com retirada flexível, pouca burocracia e suporte eficiente. Cada causa de morte virou requisito de projeto para as etapas seguintes do AVWA.
Aprendizados
- Service design começa longe da tela. As decisões mais estruturantes do AVWA, como o modelo P2P e o posicionamento do carro como fonte de renda, nasceram de leitura de contexto, não de wireframe. Hoje, como Product Designer, é a parte do processo que eu mais defendo em qualquer produto.
- Desigualdade é dado de projeto, não nota de rodapé. Os recortes de gênero e raça mudaram a pergunta do projeto, de "como facilitar o aluguel de carros" para "quem esse serviço precisa incluir para valer a pena existir". Sem esse cruzamento, o AVWA seria só mais um app de conveniência para quem já tem escolha.
- O cemitério de concorrentes ensina mais que os vivos. Estudar por que Fleety, Pegcar e MoObie fecharam rendeu requisitos mais concretos que qualquer lista de funcionalidades da concorrência ativa. Benchmarking de fracasso deveria ser prática padrão.
- Eu demoraria menos para ouvir pessoas. A pesquisa secundária foi profunda, mas hoje eu a intercalaria mais cedo com pesquisa primária para testar as hipóteses de comportamento em vez de só empilhá-las. Foi exatamente essa a função da etapa quantitativa do AVWA na sequência do projeto, e a lição ficou para tudo o que desenhei depois.

